História das cozinhas brasileiras.

BREVE HISTÓRIA DA COZINHA NAS RESIDÊNCIAS BRASILEIRAS

diversidade da comida brasileira

Sem dúvida, o ato de cozinhar vem acompanhando história da humanidade. Desde a pré-história, em 4000 Ac, era uma simples fogueira que grelhava a carne e espantava os grandes animais até chegar aos dias de hoje com o espaço extremamente pensado e organizado para preparar os alimentos e para o convívio das pessoas.

Como as refeições foram preparadas desde o fogo no chão até o fogão bluetooth?

Hoje tudo é muito fácil; compramos o frango, muitas vezes já temperado, e colocamos direto para cocção e logo em seguida consumo. As facilidades são inúmeras, desde a compra do alimento passando pelo preparo até o consumo.

Especificamente no Brasil, este cenário nos primórdios era bem diferente. Literalmente corríamos atrás do alimento. A cozinheira corria atrás do frango no terreiro ou o homem caçava, ela limpava e preparava num caldeirão sobre o fogo para todos se alimentarem. Eram assim as primeiras cozinhas brasileiras.

Com a chegada dos portugueses vários utensílios foram trazidos; tachos, chaleiras, talheres, etc… Ao norte de Portugal usava-se a chaminé, recurso adequado para quem usava a cozinha dentro das casas, servindo também para aquecer o ambiente em locais frios.

Chegando ao Brasil, os colonizadores incorporaram aos poucos o jeito indígena de cozinhar. A localização da cozinha era longe do interior da casa, onde animais de pequeno porte circulavam, não havia necessidade de aquecimento, já que o calor dos trópicos era grande.

A higiene era precária, sem refrigeração, as sobras apodreciam rapidamente, os odores não eram agradáveis, não podiam estocar produtos perecíveis. Geralmente não havia paredes, somente uma cobertura.

As técnicas de cocção eram 100% indígenas. A índia foi a primeira cozinheira dos lares brasileiros. Usava trempe, 3 pedras colocadas no chão onde apoiava o caldeirão de ferro ou cobre. Para assar, usava o jirau, de acordo com Câmara Cascudo armação de varas a determinada altura de distância do lume que que tosta pelo calor e não pelo contato. Ainda existia no Sul, o forno escavado no chão, forrado com folhas de bananeira. A comida era enterrada e o fogo ficava por cima. Os utensílios indígenas eram todos feitos por mãos hábeis que produziam em argila os potes, tigelas, jarros, moringas etc…

Jean Baptiste Debret

Ao longo do século 18 e meados do século 19, nossos hábitos alimentares e consequentemente nossas cozinhas, sofreram transformações. A cozinha passou a ser um apêndice da casa e na parte dos fundos. Frequentemente frequentado pelos escravos, era feito com material de segunda. Em fazendas abastadas, geralmente a cozinha era um local sujo e enegrecido de fumaça e com chão lamacento.

Em meados do séc. 19 o telheiro do quintal se aproximou da casa, permanecendo um apêndice menosprezado frequentado por escravos e empregados.

O fogão saiu do chão, virou uma estrutura maciça de barro e pedra, ainda hoje encontrado nas casas do interior.

A água, antes obtida com dificuldade, sendo transportada de longe, agora vinha por aquedutos até os chafarizes nas cidades, onde os escravos recolhiam. No campo, chegavam por canaletas feitas de bambu. Foi o primeiro sistema hidráulico!

Os utensílios de mesa, sofreram refinamentos, depois da vinda da família real ao Brasil em 1808. Os ricos tinham bules, açucareiros e talheres de prata e pratos de porcelanas. Eram tão raros de passavam a ser herança, guardados com carinho e citados em inventários. Na Europa desde o séc. 17 o uso de talheres era comum, no início era somente com 2 dentes para fixação da comida, os dedos auxiliavam a levar o alimento a boca. Um hábito inusitado; provar da comida do vizinho era normal e até uma prova de amizade. Em alguns locais, onde era difícil a chegada destas modernidades, as pessoas levavam seus utensílios, como faca, para alimentação fora de casa.

No séc. 19 a cozinha na Europa é influenciada pela Revolução industrial , surgindo a aplicação lógica e depois a otimização do espaço. Margarete Schutte, arquiteta vienense desenvolveu o conceito da cozinha de Frankfurt em 1926, inspirada nas cozinhas dos navios de guerra alemães, onde se produzia muito em espaços pequenos. Os projetos de cozinha daquela época foram inspirados no taylorismo dos anos 20, que maximizava desempenhos do trabalhador em determinados espaços

Na segunda metade do séc. 19, no Brasil, as transformações na cozinha foram mais significativas. Com o dinheiro do café, da borracha e do açúcar, permitiram que as novidades da Revolução Industrial chegassem ao Brasil.

Mais limpeza, com a invenção da torneira em 1800 e a rede de abastecimento de água em domicílios, em 1876 no Rio de Janeiro. Havia os ladrilhos hidráulicos, placas laváveis que cobriam o piso. Havia até mesmo uma iniciante coleta de lixo lançada no Rio de Janeiro em 1885.

A geladeira começou como um armário, revestido de cortiça e folha de flandres com uma prateleira no alto com gelo (produzida e distribuída por fábricas e entregues por um funcionário que passava pela manhã vendendo) e uma canaleta que retirava a água que escorria do gelo derretido para um balde.

No século 20 chegou o primeiro fogão a gás, de que se tem noticia, mais precisamente em 1901 no palácio do governo de São Paulo. A moda pegou, mas eram caros e importados pelas companhias de gás que também eram responsáveis pela iluminação pública.

Em 1905 a companhia canadense The Rio de Janeiro Tramway Ligth e Power Limited começou a produzir energia elétrica a principio para iluminação pública e fábricas. Com a eletricidade nas casas, o hábito de preparar comidas a noite ficou mais fácil. Em 1928 chegou as primeiras versões da geladeira elétrica, era bem pequenina com grande espaço ocupado pelo motor. Logo vieram, liquidificador, espremedor, batedeira e torradeira.

A transformação trazida pelos eletrodomésticos na arquitetura da cozinha foi enorme. A cozinha esfumaçada deu lugar a um ambiente mais fresco e limpo. As donas de casa passaram a frequentar mais suas cozinhas e ter orgulho delas.

Na década de 1950 as cozinhas eram símbolo de prosperidade, revestidas e azulejos e ladrilhos, com os armários planejados com gavetas e portas e com revestimento laminado e cores.

cozinha anos 50

A cozinha tomava o lugar de um importante espaço de reunião da família, nascia a copa cozinha.   Por décadas, na classe media, a mãe fazia as refeições enquanto os filhos faziam deveres e ao som do radio. Já a noite quando o chefe da casa chegava, a refeição era na sala de jantar. A cozinha copa não era lugar dos homens e nem das visitas.

A cozinha desta época podia até ser bonita e até mesmo cara, mas ainda era um local de serviços e permaneceu assim ate a década de 80.

A criação da cozinha americana, uma espécie de janela, que integrava a cozinha a sala, mudou o status deste ambiente. Também os apartamentos menores, forcaram nesta mudança, trazendo a cozinha para área de estar.

Uma transformação grande foi a chegada do micro-ondas, inventado em 1946 e comum nos lares americanos, só entrou no Brasil em 1985. Ele trazia a certeza que odores e sujeira não ficariam aparentes, deixando assim a cozinha livre.

Em meados dos anos 90, com hábitos mais caseiros, devido a segurança, trânsito e falta de dinheiro, reunir a família e amigos na cozinha virou moda, apesar de a dona da cozinha”, a mulher ter ido para as ruas trabalhar. Geralmente acumulou funções; cuidar da casa e trabalhar fora. Os eletrodomésticos modernos e os congelados ajudaram nesta dupla função.

Na arquitetura, a cozinha ganhou aberturas mais generosas com portas de correr e equipamentos mais bonitos, incentivados pela indústria. Arquitetos e decoradores começaram a investir neste espaço.

Nos anos 2000, elas já são mais modernas, surgem as ilhas de preparo, e a integração total com a sala de estar. Surgem as cozinhas gourmet e as pessoas se dedicam a cozinhar e receber os amigos em torno do ato de preparar a refeição. Os homens dividem as funções com suas parceiras, curtindo a preparação das refeições para família. Apesar de que, em muitos lares brasileiros, a divisão de tarefas domésticas ainda é um tabu, deixando as mulheres sobrecarregadas.

cozinha anos 2000

A automatização dos equipamentos de cozinha também são uma realidade, proporcionando agilidade e ganho de tempo no preparo dos alimentos.

Nos dias atuais, transformações estão surgindo, devido a preocupação com a comida saudável e o uso de estratégias sustentáveis para a cozinha.

A preparação das refeições está tomando um sentido mais amplo, buscando suas origens, de onde vem o alimento e como são produzidos, aliado a valores de uma geração que pensa no futuro.

As famílias também mudaram, são menores, diversas e com hábitos variados. Também temos uma população que envelhece e precisa de conforto e eficiência.

O grande desafio será manter a praticidade e conforto que a população atual precisa, agregada a comida saudável, estratégias sustentáveis de construção, uso do espaço para convivência e pensando também na situação econômica.

cozinha atual

Mudança importante será nas estratégias sustentáveis de construção de uma cozinha. Quais materiais serão usados? Como vencer o calor? Como usar menos material de limpeza? Uso da água? Como será o sistema de reciclagem de lixo? Conservação dos alimentos? Automação de tudo isso?

Poderemos produzir alguns itens do nosso alimento neste espaço?

A cozinha poderá ser móvel? Módulos acoplados que podem ser montados?

Enfim, transformações que farão parte da nossa vida sempre buscando aprendizados do passado com as vantagens do futuro.

REFERENCIAS ;

AH Aventuras na historia, texto de Flavia Pinho

Revista Tutti Vida & Estilo

Blog de Luiz Octavio Barcellos

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